O Piratininga é um atelier gerido por artistas com o propósito de compartilhar espaço de trabalho, informação, idéias, projetos artísticos e educativos. Em seus dezenove anos de existência, organizou e participou de várias exposições no Brasil e no exterior, encontros com artistas, workshops, cursos, projetos de intercâmbio, simpósios e publicações, envolvendo inúmeros parceiros e colaboradores. Além disso, abrigou dezenas de artistas que desenvolveram projetos de curta ou longa duração em seu espaço.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Uma célula

Ateliês de gravura respondem a boa parte das inquietações manifestadas no coração do artista., Um coração curioso despertado pela visão das máquinas (prensas) e dos instrumentos (muitos deles utilizados na ourivesaria e na marcenaria) para elaborar um “desenho” durante processos específicos de trabalho, que podem, contudo; unir a pintura e a gravura (feitas sobre a matriz) como receptáculos de um conhecimento histórico que é estampado e moldado por pressão sobre o papel. As estampas geradas a partir de matrizes de madeira ou de metal (cobre), deram origem à gráfica que temos hoje e todo o processo “digital” de livre escolha; relacionado ao conhecimento e a linguagem da imagem como símbolos de uma cultura corrente, para ilustrar o mundo das artes e das outras esferas de trabalho, dentro da indústria (relacionada com a tiragem). Tudo, do século XV em diante, através da manufatura (gravação e impressão simples) sobre pano, pergaminho e posteriormente, sobre o papel. Foram caminhos naturais adicionados a posturas flexíveis diante do mundo, ao tentar expandir o conhecimento, movido pela tecnologia da forma aberta, ou seja: do livro. Tanto a calcografia quanto a sua irmã mais velha, a xilogravura, constroem dentro do ateliê de gravura uma especial ligação com este tipo de artesanato (uma espécie de diagrama) onde o artista, que por princípio, deseja multiplicar a sua obra fora dos sistemas usais da malha digital, aliado ao tempo verdadeiramente proposto pela “manipulação” dos instrumentos de corte e pela força muscular ligada a inteligência das mãos, propõe em si, uma vontade e por que não, uma generosidade para com todos os artesãos que como ele, passam a construir as suas obras em ateliês coletivos de diferentes maneiras. Motivam-se pelos motores da troca e da possibilidade de vivenciarem fisicamente, a história da gráfica impressa no caráter das tintas, afundadas por pressão sobre as fibras do papel. Seja pelo livro, sejam pelos artifícios do cartaz, os ateliês de gravura justificam o berço de uma cultura (até certo ponto alternativa, pois, faz uso extremo das mãos e dos olhos como guias para um desenho mapeado através de incisões abertas nas matrizes) como irradiação também, de uma vontade de olhar o mundo através de meios “sem fio”, sem ortodoxia, sob a condução de sua própria energia. Por que, as incisões em cobre, através da gravura em metal ou da xilogravura, proporcionam uma visualização de uma identidade feita no espelho das emoções que se chocam, com as qualidades de um desenho pinçado nos extratos sociais, políticos, econômicos – locais e mundiais, agindo sobre as possibilidades de figurar e abstrair, a visão da realidade e os sonhos, alcançados pela repetição.
A importância de manter os ateliês de gravura coletivos significa perceber, na cidade de São Paulo, um espelho contínuo de situações que envolvem a imagem “no tempo” como origem de emoções construídas, avessas talvez, a urgência de informações (e de certo modo), a banalização da imagem, que somos bombardeados cotidianamente seja pela internet, pelos jornais e revistas. Não como oposição (diga-se de passagem), mas como uma escolha do artista ou qualquer pessoa que queira experimentar os processos manuais de gravação estando numa célula alçada, sobretudo, no trabalho voluntário, na poesia procurada dentro dele mesmo, soterrada pela falta de opções para elaborar, um conhecimento próprio no tempo, motivado pelas condições especiais do lugar.
Ulysses Bôscolo

xilogravura de Pedro Pessoa

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